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Dance na chuva

Há anos tenho acompanhado esse tema, de forma direta, nos processos de gestão de mudança organizacional que participei ou nos desligamentos que acompanhei, e indiretamente, nos diversos casos de desligamentos e demissões dos meus amigos, familiares, conhecidos, colegas, ex- colegas. Como profissional de recursos humanos, meu olhar sempre foi de fora, estando do outro lado, mas não o lado mais fácil. Agora meu olhar será de dentro, com a visão e perspectiva do dia a dia do profissional em situação de desemprego.
Decidi divagar em um assunto complicado e cuidadoso: transição de carreira. Não terei como foco dar dicas para a transição e sim relatar e falar sobre as diferentes sensações que vivenciamos nesse processo e como podemos seguir em busca de novas oportunidades de carreira e de vida.  Conheço excelentes livros e manuais com dicas de carreira, desenvolvimento, como buscar uma recolocação. Mas tenho encontrado muito pouco material ou oportunidades de falar a verdade sobre o dia D (dia do desligamento) e os dias seguintes... que podem ser enfrentados de diferentes maneiras: pessimista, achando que o pior aconteceu ou otimista, achando que o melhor está por vir.
Essa viagem começou há algum tempo quando decidi passar pela transição. Isso, algumas vezes, decidimos passar por essa jornada, de maneira consciente ou inconsciente.
O meu processo começou de maneira inconsciente, quando algo dentro de mim sentia e falava que não era o meu caminho. E se tornou consciente, quando comecei a refletir e pensar próximos passos de carreira, como realizar a transição e como encontrar um trabalho que tivesse mais sentido para as minhas perspectivas e vontades.
E nessa jogada, fiquei desempregada, ou como costumamos dizer por aí, em transição de carreira.
Nossa cultura capitalista não nos permite o desemprego. Desemprego, em linhas gerais, significa perda. Perda de status, perda financeira, perda de poder, perda de relacionamentos, perda da alegria de viver. Normalmente nesse período, devido às restrições financeiras, não podemos viajar, jantar fora em um caro restaurante, não podemos várias coisas. Existe a culpa, a pressão familiar e a pior pressão: a interna. Não nos permitimos estar desempregados nem um só minuto. Passamos dia e noite pensando no próximo emprego, em como encontrar a oportunidade dos sonhos, em como realizar a próxima entrevista, em como contatar os diversos headhunters que estarão disponíveis para nos ajudar.
No entanto, no meu ponto de vista como profissional de desenvolvimento e carreira, sem diminuir nenhuma das perdas que vivemos no nosso dia a dia de transição, existe uma luz no fim do túnel. E essa luz aparece quando passamos a aproveitar esses momentos para refletir, indagar, questionar, planejar e implementar os próximos passos para a procura da próxima oportunidade de carreira.
Quando nos tornamos conscientes dos diferentes processos que acontecem conosco nessa nova jornada, conseguimos passar por ela de maneira mais realista e segura. E tomar decisões tendo em vista a escolha do novo (que pode ser a nova forma de vida, o novo trabalho, a nova carreira de consultor, a aposentadoria). O que importa é que a perda sempre traz a possibilidade do novo.
Como dizem por aí, se a tempestade não quiser passar, dance na chuva. Disso se trata.

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